sábado, 1 de dezembro de 2007

O Anjo Negro

A taberna estava mal iluminada, apenas com a luz da lareira que ardia no meio da sala. A taberna ficava perto de um local onde as duas principais estradas do reino se cruzavam, e por isso estava sempre atulhada da mais estranha gente. No meio de toda esta variedade de pessoas ele ficava como queria. Ninguém o notava e ele podia ficar simplesmente a um canto escuro com o capuz do manto negro a ensombrar-lhe a cara, ainda que se alguém reparasse com atenção veria uns olhos a brilharem. Olhos vermelhos de pupilas fendidas, que nenhum humano partilhava. Olhos preparados para ver no escuro, pois a luz feria-os. Se pudessem ver a sua cara estranhariam também a sua forma delgada, as sobrancelhas em que as pontas exteriores apontavam para cima na diagonal. Mas nada disto os faria desconfiar que ele não era humano, a menos que vissem a sua dentição de caninos pontiagudos que sobressaiam dos outros dentes normais.
Ele percorria todos os caminhos da região e raramente ficava mais do que uma noite no mesmo sítio. Aliás, era de noite que percorria milhas e milhas, entre montanhas, florestas e campos. Conhecia todos os cantos das ravinas junto ao mar, todas as árvores das florestas do interior, todas as casas das grandes cidades. Conhecia toda a região porque a percorria desde que se afastara dos seres da sua espécie. De noite andava, enquanto de dia, encontrava um qualquer buraco onde a sombra se mantivesse durante todo o dia e descansava, pois a luz era-lhe incómoda. Não é que o destruísse ou que de alguma forma o aleijasse, mas dava-lhe uma estranha sensação de calor exagerado que era de alguma forma dolorosa. E a luz era também um incómodo para os seus olhos que viam melhor à noite. A luz directa do Sol ou de alguma forma reflectida ofuscavam-no e causavam-lhe dor.
O seu afastamento da sua comunidade foi uma consequência natural do seu estado. Ele nunca foi como os outros demónios da noite. Nunca percebeu a maneira como eles se traiam até a eles próprios, como nunca perdiam uma oportunidade de se sobressaírem perante o seu senhor nem que isso fosse o resultado da destruição de outros, fossem humanos ou mesmo demónios. Nunca gostara da sua hipocrisia, do seu cinismo e falsidade. A honra que lhe habitava a alma contrastava com a negritude da alma dos seus semelhantes.
A sua família era da mais alta estirpe. O seu pai tinha sido um importantíssimo soldado do mal e quando a sua carreira estava no auge e se preparava para ser promovido pelo Deus Negro a seu Primeiro General foi assassinado por um seu rival assim como toda a sua família. Só ele escapou pois as suas qualidades eram já significativas e o assassino, ou por medo ou por uma tentativa de lucrar com as suas qualidades, preferiu não entrar em confronto e antes seduzi-lo a ocupar uma posição elevada junto dele. O resultado foi uma cabeça cortada e o Deus Negro teve de arranjar um terceiro demónio para ocupar o lugar de Primeiro General...
A partir daí nunca mais conviveu com os seus e votou-se a uma vida nómada, destruindo todos os demónios que encontrava pela frente protegendo os humanos das suas maléficas acções. Nunca se poderia estabelecer junto aos humanos pois eles iriam sempre receá-lo e só por momentos se permitia a introduzir-se entre eles e passar um bocado no conforto de uma taberna. Momentos esses que já estavam a terminar. Depressa partiria para aproveitar a noite, logo após acabar o seu vinho e seguiria até às montanhas a norte onde passaria o dia nas antigas minas.


Os três seguiam na sua demanda após um leve pequeno-almoço, seguindo o seu caminho ainda de noite enquanto "O Mago" explicava mais uma vez a importância d"O Escolhido" para acabar com a Era das Trevas.
- Sim, eu sei que só eu posso acabar com o Deus Negro. Tenho aprendido bastante acerca disso e de como o fazer. O que eu ainda não sei é porque tu insistes em vir comigo. - Disse "O Escolhido" encolhendo os ombros perante as palavras que não lhe eram novas.
- Já vi que estás bem instruído. - Respondeu "O Mago" pacientemente - Mas diz-me: saberás onde encontrar o Deus Negro, quando a altura chegar? Imaginas por acaso que o caminho estará livre até lá chegares?
- Podem vir os demónios que vierem, que ele enfrentá-los-á. - Disse o velho - Tenho-lhe ensinado todas as técnicas que conheço e posso dizer que foi o melhor aprendiz que já tive. Isso aliado ao talento que lhe foi concedido...
- Não entendem... - continuou "O Mago" - não é a demónios que me refiro... é a magia! E da mais poderosa! Magia que apenas eu tenho conhecimentos para contornar!
Contou então a sua história, fazendo entender aos seus companheiros a sua importância para que a profecia se cumprisse. Continuava ainda no seu relato quando "O Escolhido" lhe cortou a palavra.
- Shhh! Sinto alguma coisa... Estão demónios nesta zona!
Foram seguindo com ele na liderança enquanto "O Mago" lançava um encantamento que lhes permitisse andarem sem serem ouvidos. Foram andando até chegarem à orla da floresta onde avistaram a alguma distância um casa e viram uma mulher jovem a sair disparada da porta para fora. Fugia com todas as forças que tinha mas foi facilmente apanhada por um de dois demónios que vinham calmamente atrás dela. "O Escolhido" saiu à sua ajuda mas antes de galgar a distância que o separava da mulher um outro ser apareceu. Um ser de manto preto surgiu do nada numa rapidez impressionante projectando os dois demónios vários metros e com grande agilidade desembainhou a sua espada, cortou a cabeça a um dos demónios que se tentava levantar e espetou de seguida a espada no peito do outro, cravando-o ao chão. "O Escolhido" ficou espantado com aquilo que se passou em milésimos de segundo. Aproximou-se do ser que ficou de costas para ele, com o capuz cobrindo-lhe o rosto, sentindo-o chegar enquanto embainhava a sua espada novamente.
- Quem é tu? - Perguntou "O Escolhido".
- Não vais querer saber!- respondeu o outro enquanto se preparava para sair dali.
- Sim, quero... - disse ele enquanto lhe cortava o caminho.
Levantado levemente o rosto para olhar o humano sob as sombras do seu capuz o ser perguntou:
-Por mais estranho que eu te pareça, juras que não te virarás contra mim? Não me apetece lutar com quem não merece...
Estranhando a pergunta o humano respondeu:
- Juro-o! Qualquer um que combata demónios é meu aliado!
- Tenho os juramentos dos humanos em boa conta... - disse o ser, e retirando o capuz continuou - Podes-me chamar Anjo Negro, pois demónio negro não serei jamais!
"O Escolhido" estremeceu quando viu as suas feições e a sua primeira reacção foi a de levar a mão ao punho da sua espada, mas depois lembrou-se do juramento que tinha feito e lembrou-se que por mais estranho que pudesse parecer aquele ser tinha acabado de matar dois demónios e salvar uma mulher! Relaxou... e convidou o Anjo Negro a contar a sua história, o que este acabou por fazer, contente por o humano ter cumprido a sua palavra e ao que parecia estar preparado para o aceitar como era apesar de toda a estranheza que o envolvia.
*O Escolhido

14 Comments:

Blogger Frankie said...

Beeeeeem, que mais posso dizer, se não que estou ansiosa por ler os "próximos capítulos"?!

Gosto do rumo que a história está a tomar... como gosto do jeito que tudo descreves e que me faz ser quase capaz de ver tudo desenrolar-se à minha frente, como se de um filme se tratasse.

Parabéns!

Dark kiss*



PS:"No meio de toda esta variedade de pessoas ele ficava como queria. Ninguém o notava e ele podia ficar simplesmente a um canto escuro com o capuz do manto negro a ensombrar-lhe a cara..."
Já alguma vez jogaste Diablo?!
De repente, quando li essa frase senti-me transportada para dentro do jogo ;)

3/12/07 11:00  
Blogger Lux Caldron said...

É apenas mais um rascunho e quanto aos próximos capítulos não te posso prometer que esteja para breve. D"O Mago" para este passaram quase dois meses e meio. D"O Escolhido" para "O Mago" foi um ano...

Não conheço esse jogo... como é?

Dark kiss*

3/12/07 16:46  
Blogger mariazinha said...

Eu também fico à espera do próximo capítulo. Gosto do modo como nos fazes "ver" as imagens que escreves.
:)
beijo*

4/12/07 22:23  
Blogger Lux Caldron said...

:) Às contas dos vossos comentários quase me convencem a escrever um livro...

Se acabar o curso e ficar desempregado já sei o que vou fazer...

Dark kiss*

5/12/07 03:47  
Blogger andorinha said...

Gostei muito, lê-se de um só fôlego.
E o final, então?
O humano não só cumpriu a sua palavra como estava preparado para aceitar "o Escolhido".

Quantos de nós não marginalizamos e ignoramos ostensivamente quem é diferente?
Gosto destes posts que fazem pensar.

Já agora e face aos comentários acima, uma sugestão: acabas o curso e escreves. Não são actividades incompatíveis...

Beijo*

5/12/07 18:28  
Blogger Lux Caldron said...

Pois não... mas escrever um livro seria algo precisaria de mutia disponiblidade. Das duas uma: Ou ia escrevendo muito devegar, ou então algo ficaria para trás. E além disso não estou certo de ter capacidade para o escrever... Como já disse nos comentários do post "O Mago", uma coisa são escrever rascunhos como este... outra é escrever um livro inteiro.

Dark kiss*

PS:"O Escolhido" é o humano que segundo a profecia irá destruir todos os demónios da noite juntamente com o Deus Negro :). O Anjo Negro é um demónio que se auto exilou da sua comunidade. Clica nos links e lê os textos anteriores

5/12/07 18:39  
Blogger andorinha said...

Vou ler sim. Há bocado estava com pouco tempo...
Mas agradeço-te já esta explicação.
Ainda me perco um bocado nestes mundos:)

5/12/07 23:28  
Blogger Lux Caldron said...

:) Sempre às ordens!

6/12/07 02:22  
Blogger Frankie said...

Ora bom dia!

Cá estou eu outra vez.

Em primeiro lugar agradeço o "aviso" quanto à provável demora para os próximos capítulos.
Mas a escrita é mesmo assim: não se carrega simplesmente num botão e escreve-se.
Para os textos serem daqueles que vale a pena ler têm de surgir naturalmente ou ir amadurecendo e isso leva o seu tempo.

Quanto ao Diablo...
O jogo -e respectivas expansões- já tem uns aninhos mas, eu que nem sou grande fã de jogos de computador adorava aquilo porque, entre os diferentes níveis, iam passando uns "traillers" com a história e os gráficos, para a época, eram brutais -parecia mesmo que estava a ver um filme-.

É um RPG, passado algures na Idade Média.
Basicamente trata-se de três irmãos: Diablo (o Senhor do Terror); Menphisto (o Senhor de outra coisa qualquer que neste momento não me lembro o que era e Baal (o Senhor da Destruição) que o jogador tem de derrotar ao longo do(s) jogo(s).

Agora, o que no teu texto me fez lembrar o jogo é aquela frase que "sublinhei", porque o Diablo II começava precisamente numa taberna, com um homem encapuzado e meio escondido...
Por acaso não era nenhum dos demónios, mas sim o herói do jogo anterior, cuja alma se encontrava corrompida e escravizada pelo Senhor do Terror que supostamente havia derrotado no primeiro jogo ;)

(Se calhar a explicação está um bocadito confusa... E desculpa lá se for esse o caso)

Dark kiss*

6/12/07 09:01  
Blogger Lux Caldron said...

Obrigado pela explicação. Não está confusa pelo contrário. Acho que também era capaz de gostar do jogo... Gostei especialmente do "Menphisto (o Senhor de outra coisa qualquer que neste momento não me lembro)" :)

Dark kiss*

7/12/07 03:52  
Blogger Frankie said...

É; esse é especialmente bom -e um belo exemplo da minha memória "privilegiada"-.
;)

Dark kiss*

7/12/07 09:59  
Blogger Lux Caldron said...

:) Dark kiss*

7/12/07 15:35  
Blogger Ana said...

E mais uma que fica á espera dos próximos capítulos!! :)

7/12/07 17:42  
Blogger Lux Caldron said...

:) o que me vale é que já avisei que pode demorar. Já tenho desculpa para só escrever daqui a um ano... eheheh

Dark kiss Ana

8/12/07 03:53  

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